Jurandir Merk Possta

:: Jurandir Merka Possta ::

Crônicas.
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Jurandir Merka Possta

Jurandir Merka Possta

 Jornalista e escritor. É tido como um dos mais infâmes cronistas nacionais. conhecido por suas posições, no mínimo absurdas, ele prossegue em sua tarefa de suscitar a dúvida, a reflexão e o desprezo alheio.

 

Crônicas:

O verão mais quente dos últimos 50 anos

  Enquanto a Europa é castigada com altas temperaturas, os Estados Unidos se chocam com a força avassaladora dos furacões e tufões que esse ano vieram com força triplicada. Apesar de causar certa surpresa pode-se dizer que tudo isso era esperado, e isso é só o começo. Segundo especialistas, o Tio Sam, que éo maior poluidor entre todas as nações, só vai fazer alguma coisa concreta quando, perdoem a expressão, "a água bater na bunda". Desastres naturais serão cada vez mais freqüentes e quanto maior a força de destruição, maior o impacto na economia dos Yankees. Ai então, será hora de voltar para Kyoto e assinar aquele tratado, que do alto de sua arrogância e egoismo, se recusaram a assinar a pouco tempo atrás. Por mais imcompreensível e triste que seja, temos que admitir que enquanto nação mais poderosa da atualidade, eles vão se sentar e assistir ao mundo se contorcendo em agonia e não farão nada até o momento em que a tragédia os atingir de verdade.

  Em Londres, a vida continua, não se sabe como. No domingo, 10 de agosto, as temperaturas chegaram a 38.1C. A mais alta de que se tem conhecimento desde de que se comecaram as medições em 1659. Uma mistura de caos, alegria e assombro se instalou na cidade. O problema é simples de se entender: tudo aqui é construído e projetado para se evitar o frio. Nunca se pensou em onda de calor. Por isso mesmo as casas, mêtros, lojas e ônibus têm pouca ou nenhuma ventilação. O verdadeiro pesadelo é andar de ônibus em baixo de um sol de 35-37C com apenas cinco ridículas e minúsculas janelinhas abertas. O transporte público está a beira do colapso. A opinião pública, indignada, pede explicações que nunca são oferecidas. Em janeiro, uma nevasca, que não foi das maiores, congelou as linhas de trens e causou atrasos e cancelamentos. Centenas tiveram de passar a noite em hotéis por não terem como voltar para casa. O que acontece agora eh que com o calor abrasante, dizem os técnicos, os trilhos podem empenar e causar descarrilhamentos. Por isso, um limite de velocidade foi imposto e agora os trens correm a metade da velocidade normal. Cartas enfurecidas inundam as redações dos jornais: "Deveriamos perguntar aos japoneses como é que o trem-bala deles não descarrilha seja com neve ou calor…" "Alguém ai pode me explicar por que isso não acontece no resto da Europa onde as temperaturas são sempre mais altas que aqui?" "Acho que são apenas desculpas esfarrapadas, na verdade a falta de investimento e manutenção são as causas de tudo isso…" Não é difícil de imaginar o que se passa pela cabeça de alguém que tem que enfrentar uma rotina de trens atrasados e com pouca ventilação. Junte-se a isso o fato de que eles não são adptados a essas temperaturas. Em alguns lugares o asfalto literalmente derrete.                                                          

  Tristesa de alguns, alegria de outros. As vendas de cerveja e sorvetes triplicaram. E para os produtores de vinho não podia estar melhor, com essas temperaturas ideais para as uvas um dos melhores vinhos de todos os tempos sera produzido esse ano. Em meio a confusão as autoridades tentam fazer a sua parte e distribuem conselhos, alguns deles de validade duvidosa: Devido ao alto índice de poluição causado pelo efeito estufa, que impede que gases venenosos se dissipem na atmosfera, aconselha-se evitar exercícios ao ar livre e ficar mais em casa com as janelas fechadas (!!). Para evitar problemas com os aquecimentos centrais no inverno, aconselha-se ligar o mesmo por algumas horas agora no verão (!!).

  Confusões a parte, essa tem sido uma época de alegria aqui. Rios, piscinas e praias lotadas, pessoas que antes eram brancas agora são vermelhas e para comemorar, bebem. Em recente visita a cidade de Shakespeare, um guia me contou que naqueles tempos uma das tarefas das mulheres era a de preparar cerveja. Como a água era extremamente poluída era popularmente aceitável que um copo de cerveja faria muito melhor a saúde das crianças do que um copo de água. Acho que isso explica por que eles bebem cerveja como água.

Mas tudo é alegria e eles estão aproveitando esse como se fosse o último verão de suas vidas, apesar de um pouco atrapalhados. Quem sabe no próximo ano eles estejam mais preparados.

                                                                                Londres: 25/08/03.

 

:: Que Venham a Mim as Criancinhas ::

  Alô, amigos! Aqui está o seu Possta de volta. Para alívio dos que me amam e terror dos que me odeiam. É claro que a demora em aparecer é estratégica, para deixar vocês com mais saudades. Hoje vamos falar das criancinhas. Com toda a ingenuidade que me foi dada de presente quando nasci, pensei que já havia visto de tudo durante os anos em que trabalhei nos chamados "Programas de Apoio" (soa bonito, né?) aos menores abandonados da nossa querida Curitiba. Grande foi o meu espanto ao descobrir que aqui na Inglaterra os menores não são vítimas e sim uma ameaça a segurança pública. Não, não existem crianças maltrapilhas mendigando nas ruas. O problema aqui são aquelas que tem o conforto de um lar, desfrutam de todas as regalias possíveis e talvez por isso mesmo se entediam mais facilmente. Até ai, tudo bem. Nada de errado em se sentir entediado.

  O que assusta são os métodos usados por esses pequenos delinqüentes para tornar o dia a dia mais interessante. Recentemente, um documentário feito a partir de gravações de circuito fechado de TV chocou a opinião pública ao mostrar como estas crianças praticam verdadeiros atos de terrorismo, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo, deixando claro um total desprezo pela vida alheia e o modo como são educados em casa. Próximo a uma estação de trens, alguns garotos, com idades entre 4 e 9 anos brincam alegremente. A brincadeira consiste em bloquear os trilhos com objetos que variam desde uma inocente latinha de cerveja ou um galho de árvore até um carrinho de supermercado. Miraculosamente, nada de mais grave acontece, apesar de os trens se chocarem com os objetos a mais de 100km/h. Após ligeira investigação, os garotos são presos e imediatamente liberados por não terem idade suficiente para serem processados. Os pais são advertidos verbalmente. Numa passagem de pedestres sobre uma rodovia, duas garotas, com idades entre 7 e 9 anos, parecem estar muito ocupadas em uma tarefa que a princípio não fica bem clara. Um simples zoom na câmera e o absurdo é constatado: elas estão a quase 10 minutos transportando tijolos que mais tarde serão arremessados nos pára-brisas dos carros que passam embaixo. Apesar de não ter sido registrado pelas câmeras, já se sabe que esse ato de vandalismo foi a causa de acidentes graves e até mortes. Novamente, após investigação, as garotas são presas, liberadas e os pais recebem uma bronca.

  Para finalizar este show de horrores, gostaria de mencionar a história de K.P., 16 anos, que foi publicada nos jornais da semana passada e que mostra a crueldade sem limites de algumas dessas crianças. K.P. foi uma das inúmeras vítimas da nacionalmente popular bully (pronuncia-se como se escreve). Desde a escola primaria ele foi alvo de piadas, apelidos maldosos, perseguições e constantes espancamentos. O motivo, simples: era tímido, gordinho, usava óculos e sendo calmo por natureza, se recusava a fazer parte das gangues de rua. Um garoto inofensivo. Apesar de ter excelentes notas na escola, e com isso, a possibilidade de futuro promissor, decidiu acabar com o pesadelo. Uma noite foi se deitar, colocou a foto da mãe sobre o travesseiro e suicidou-se tomando uma dose excessiva de medicamentos com álcool. Deixou uma carta contando seus motivos e com detalhes para o funeral, incluindo a música que gostaria que fosse tocada.

  Este é o retrato de uma geração. Nos resta esperar que nenhum destes terroristas mirins ocupem cargos em que o bem estar de terceiros dependa de decisões tomadas por eles.

                                                                                                         Londres: 30/06/03.

:: O Primeiro Ministro e o Cowboy do Apocalipse ::

   A guerra acabou. É o que eles dizem. No Iraque, as famílias começam a reconstrução de suas vidas e os homens raspam os bigodes. Os soldados americanos são apedrejados e para se defenderem, mandam bala. Na América, os furacões lançam sua vingança divina. Um psicopata, que muito nos lembra Hitler, continua inebriando as massas com seu discurso imperialista. Não tem nada a ver com imperialismo, ele diz - "É tudo em defesa da soberania nacional". O engraçado é que essa era a mesma frase usada pelos cachorros da ditadura brasileira…  

    A Inglaterra começa a enterrar seus soldados, muitos deles mortos pelas balas da "artilharia amiga". Há um sentimento de revolta por aqui. Dizem que a incapacidade dos Americanos em distinguir um tanque iraquiano de um britânico se deve pela falta de um sistema eletrônico de identificação que só não foi instalado por falta de recursos. Os tanques americanos tinham esse sistema. Mas, por que então mandar os soldados para missões suicidas? Essa e muitas outras perguntas são feitas continuamente a Tony Blair. Alguns se perguntam como é que ele consegue dormir a noite. Tendo completado cinqüenta anos na última semana, Tony foi o tema principal de uma revista editada semanalmente por um dos mais importantes jornais ingleses. A matéria traça o perfil de um homem de personalidade forte, empenhado em arriscar toda uma carreira em nome de suas convicções. Um repórter e um fotógrafo tiveram total acesso ao Número 10 da Downing Street e ao dia a dia de seus moradores. Acompanharam desde as viagens diplomáticas do Primeiro Ministro até os programas de auditórios onde ele foi vaiado, xingado e por vezes, quase agredido. Tony é o que se poderia chamar de "um cara legal": Casado e pai de três filhos. O mais novo, Leo, acabou de completar um ano. O passatempo favorito de Blair é tocar guitarra e ouvir rock'n roll. John Lennon está entre um de seus favoritos. Nos dias de intensa pressão que antecederam à Guerra , reuniu toda a família para lhes dizer que poderia perder o emprego e lhes explicou suas razões por aceitar esse risco. Religioso, se diz preparado para se encontrar com Deus e prestar contas pelas mortes de inocentes em decorrência de suas decisões. Disse isso se referindo ao episódio em que soldados americanos abriram fogo contra um veículo que transportava mulheres e crianças e que se recusara a parar num bloqueio. Manteve suas convicções até o final. Muitos de seus ministros renunciaram, o partido entrou em crise e num pronunciamento histórico deixou claro que se não fosse apoiado, renunciaria também. Funcionou. Recebeu o apoio que precisava para mandar as tropas ao Golfo. Agora, depois da tempestade, se encontra mais uma vez numa batalha: o sistema de Saúde Pública necessita de reformas e não está sendo fácil convencer todos de que isso seja necessário, embora seja fácil de se perceber a ineficiência dos serviços prestados. Parece existir grande coerência em tudo o que ele faz . A perturbadora pergunta que ainda paira no ar é a seguinte: Por que se aliar a um psicopata? Talvez, seja porque ele quer a todo custo combater o terrorismo e evitar que uma tragédia semelhante ao 11 de Setembro ocorra por aqui. Diz que o mundo e a forma de pensar sobre o mundo mudaram completamente depois dos atentados na América e que o Ocidente deve se unir para combater essa ameaça. Mas, não haveria uma outra maneira? A Inglaterra conviveu durante trinta anos com as bombas do IRA. Pode-se dizer que são peritos em combate ao terrorismo. O que o Tio Sam, com toda a sua ineficiência, comprovada depois que os fanáticos seqüestraram tão facilmente aqueles aviões, tem para ensinar? Quem sabe um dia todas essas perguntas serão respondidas. Quem sabe um dia iremos entender por que "um cara legal" se uniu a um maníaco.

   Por enquanto só nos resta esperar e analisar os acontecimentos. O tempo vai dizer. A historia vai julgar.

                                                                                                           Londres:  08/05/03.

:: Tratado da Irreverência ::

Caros amigos,

  Antes que vocês digam: "Ai! Lá vem esse Possta de novo com suas críticas" - gostaria de lhes explicar de antemão o que me leva a usar da irreverência e de um certo sarcasmo quando escrevo sobre as coisas da Velha Europa e do Tio Sam (o senhor da guerra não gosta de crianças). Acima de tudo, quero poder despertar em cada um de vocês o sentimento de orgulho pelo nosso país, a muito tempo perdido graças ao batalhão de imbecis que se julgam no direito de denegrir a imagem de sua terra natal e do povo que nela nasceu e vive com tiradas do tipo "…isso só pode ser coisa de brasileiro…", "…jeitinho brasileiro…" (no mau sentido, é claro). Estas pessoas, na maioria a nata da sociedade brasileira, são uns traidores e mereciam ser banidos do país para sempre. "Mas onde é que esse Possta quer chegar?" Calma lá, já lhe digo. Tenho vivido aqui nessa Europa por alguns anos e tenho presenciado coisas que deixariam qualquer brasileiro de cabelo em pé. Não consigo imaginar de onde veio a idéia de que isso aqui é que lugar bom para se viver. Pode até ser. Mas, o que quero deixar claro com o meu testemunho, é que os problemas que nós temos no Brasil, existem aqui também, e isso me choca. Pois no Brasil temos todas as complicações de uma economia em recuperação, temos corrupção, violência, favelas e dependemos do dinheiro do FMI para sair do buraco. Aqui não. Eles são, na sua grande maioria, países industrializados e ricos, mas que produzem muito pouco ou nada e ainda tem problemas crônicos como: o da saúde publica. Você sabia que as pessoas também morrem nas filas de espera dos hospitais públicos da Inglaterra? Que no metro e nos ônibus de Londres, em horário de pico, as pessoas andam apertadas como sardinhas, igualzinho ai no Brasil? Que o Council Tax, o equivalente ao nosso IPTU, teve um aumento de 21% nesse ano e muitas pessoas não encontram outra saída a não ser vender seus imóveis e procurar uma casa na periferia onde é mais barato e a violência e o tráfico também reinam? Que uma cesariana é tida como o último recurso, apenas quando se está correndo o risco de perder a mãe e a criança no trabalho de parto por ser considerada muito cara para os cofres do governo?                                                                        

  Amigos, utopicamente falando, todos os brasileiros deveriam fazer um estágio de alguns meses aqui, para esquecer de uma vez por todas, esse complexo de inferioridade que vive conosco como um parasita, limitando pensamentos, sonhos e sugando nossa vontade de progredir e de construir uma nação mais justa e fraterna para todos nós; e, para as futuras gerações, meus e seus filhos.

  Meus queridos, fiquem em paz e nunca deixem te ter orgulho de dizer: "Eu sou Brasileiro".

Até a próxima.

Abraços,

Jurandir Merka Possta.

08/04/03

 

:: Comentários de uma pequena ilha (eles dizem que é o primeiro mundo!!!) ::

Título original em inglês : "Notes from a small island (they say it's first world!!!!!)".

 Recebi estes dias, um e-mail de um querido amigo do tempo de faculdade. Já há algum tempo que não o vejo, afinal ele já está morando há mais de cinco anos em Londres. Nesta mensagem de correio eletrônico que este colega me enviou, comentava ele acerca das repercussões da invasão das forças aliadas ao Iraque. Escreveu-me algoassim: 

 "É eu aqui, no meio do redemoinho. Essa guerra é uma merda! O Blair se meteu numa enrascada enorme e agora não tem como sair, arrastou o país para um confronto sem justificativas e sem o apoio da população (90% é contra). Ainda há estudantes e organizações fazendo passeatas diariamente, pedindo a retirada das tropas do Golfo. Não sei se é a hora nem o lugar certo para fazer isto. Na maioria, são estudantes adolescentes e pré-adolescentes com adrenalina demais nas veias. Acham tudo muito excitante. Apanham da polícia, xingam, apanham de novo e vão para casa nos ônibus contando aos amigos como foram "bravos". Soa ridículo. Na verdade, a maioria não está nem aí com os inocentes que vão morrer. São alienados.  Então, eu me pergunto: Por que não fazem pressão para tirar o Mugabe do Zimbabwe? E o caso do Tibet? E a fome na África? Ah! Lá não tem petróleo! Azar o deles. Fico acompanhando de longe a situação do Brasil, estou com mais esperanças. Acho que se a gente conseguir consertar esta máquina administrativa e a previdência, a terra Tupiniquim será o melhor lugar do mundo para se viver. Esta Europa é uma putaria, meu amigo! Eles vivem de aparências. Eu na verdade não sei quem é mais terrorista: Bin Laden, Bush ou Chirac (este último gosta de posar de pacificador, mas na verdade é outro safado, como se ninguém soubesse dos interesses financeiros dele no Iraque!!). Usando do brasileiro popular, bando de viado".

 Em suma síntese, pode-se dizer que, a invasão das forças aliadas ao Iraque pode ter vários sentidos tais como: a) a instauração do terrorismo de Estado (EUA); b) a sobrevalência das mega corporações por sobre os interesses dos indivíduos; c) a afirmação do capitalismo como uma política consumista selvagem, que pela mera existência pode ameaçar todas as nações do planeta; d) o pouco caso com a opinião pública mundial; e) o poder da mídia e da desinformação; f) o egocentrismo estado unidense como força sem paralelo na geopolítica atual; etc. Muitos continuam a rezar pedindo a Deus uma resposta. Todavia, não recebem resposta alguma. Parece até que um novo Deus está chegando e seu nome não é Jeová nem Allah. A propósito, você saberia dizer o nome deste novo Deus?

27/03/03.

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